Tânia Lisboa e Cristina Capparelli abrem
Temporada da Pró-Música de Florianópolis

No programa, faixas do CD 'The Brazilian Cello', gravado em 2009, com a obra completa de Camargo Guarnieri entre outros compositores brasileiros como Nepomuceno, Mignone e Osvald

Tânia Lisboa (violoncello), brasileira, reside em Londres há 22 anos e desde 2001 faz parte do corpo docente do Royal College of Music, é doutora em Psicologia da Música e Educação Musical no Center For Performance Science. Tem recebido críticas elogiosas por sua interpretação de várias obras do repertório solístico, tanto no Brasil como no exterior. Seus estudos de música iniciaram-se através do piano, diplomando-se com medalha de ouro pelo Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos” de Tatuí. Paralelamente desenvolveu seus estudos de violoncelo no Brasil, com Gretchen Miller e David Chew. Seu desenvolvimento musical permitiu-lhe a distinção de 1º Prêmio em vários concursos como violoncelista e pianista. Tais prêmios incluem concertos frente a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, recitais pela Rede Nacional de Música/FUNART através do concurso “Jovens Intérpretes da Música Brasileira”; e premiação no “Concurso Sul América de Música”. Ainda no início de sua carreira, foi selecionada também para participar da renomada Orquestra Jovem Mundial “Jeunesses Musicales”, com a qual apresentou-se no Canadá, Japão e Coréia (1985) e Polônia (1986). Seus estudos de pós-graduação foram realizados na Inglaterra, através dos cursos “Advanced Solo Studies” na Guildhall School of Music and Drama, “MA in Music Performance Studies”, na City University concluído “com distinção” em 1992, e Doutorado em Performance na Universidade de Sheffield. Na Europa, seus estudos de violoncelo foram realizados com Raphael Wallfisch, Richard Markson (Inglaterra), e Maud Martin Tortelier (França). Atualmente, exerce o cargo de Professora Doutora no Orpheus Institute na Belgica e na Royal College of Music em Londres, onde faz parte do corpo docente e integra o Centro de Pesquisa em Performance Musical, tendo apresentado palestras em varias Conferências na Bélgica, Austrália, França, Espanha, Portugal, USA e Inglaterra. Como solista, sua carreira tem envolvido recitais e concertos frente à orquestras na Itália, França, Inglaterra, Turquia, Japão, USA, México, e Brasil, tendo gravado para programas de rádio e TV, entre os quais, a BBC de Londres. Seus CDs para a MERIDIAN RECORDS em Londres, incluem “Octachord:Virtuoso Duos” com principais obras para violino e violoncelo; “Les Soirées Intimes” contendo a obra completa de G. Fauré para violoncelo e piano, gravado com a pianista Maria de La Pau Tortelier; “O Violoncello do Villa”,em três volumes, com a obra completa de H. Villa-Lobos para ‘cello e piano com a pianista Miriam Braga; e "The Brazilian Cello", gravado em 2009, com a obra completa de Camargo Guarnieri. Seus CDs vem recebendo elogiosas criticas publicadas nas revistas Gramophone e Classic CD de Londres.

Cristina Capparelli (piano) — Mineira de Uberlândia, é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul desde 1985. Tendo sido a primeira coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Música iniciado em 1987, é professora titular de piano desde 1996. Ao lado de sua intensa atividade docente, apresenta-se regularmente com orquestras, grupos de câmara e em recitais de piano solo na cidade. Na sua formação recebeu o título de mestre em música com honras no New England Conservatory, o doutorado em artes musicais na Boston University com bolsa da Comissão Fulbright e no final dos anos 1990 concluiu um estágio de pós doutorado na University of Iowa. Durante uma das suas estadias naquele país, foi escolhida para uma turnê pelo sul do país como solista da orquestra de Câmara New England Sinfonia. Como pianista do Trio Panamericano apresentou-se em vários recitais em uma turnê sob os auspícios da Comissão Fulbright por todo o Brasil e como professora visitante tem sido presença marcante em escolas de música do país. Entre os CDs que gravou constam a obra completa para piano do compositor Bruno Kiefer (1995) E a vida continua... , sendo que a última peça gravada Terra Selvagem pode ser encontrada em outra gravação Colóquio, ambas produzidas pelo selo Funproarte. Seu CD intitulado Música Latino-americana para Piano, sob os auspícios do Programa de Pós-Graduação Mestrado e Doutorado em Música da UFRGS, reflete seu interesse por um repertório variado e extenso. No ano de 2008 gravou o CD The Brazilian Cello para o selo Meridian da Inglaterra com a violoncelista Tania Lisboa e que contem a obra completa para violoncelo e piano de Camargo Guarnieri. Cristina publica nas principais revistas de música do país tais como Hodie, PerMusic, Claves, entre suas realizações cabe assinalar o lançamento da publicação intitulada: Três Estudos Analíticos: Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri. Convidada freqüente para masterclasses em universidades no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, em maio de 2009 apresentou uma conferência no Royal College of Music em Londres sobre a projeção da expressividade na execução ao piano. É pesquisadora do CNPq e procura ativamente conciliar as atividade acadêmicas, pedagógicas e artísticas. No ano em curso celebra 40 anos de atuação artística com o violinista Fredi Gerling.

Programa

C. Debussy (1862-1918)
Sonate pour violoncello et piano (1915)
- Prologue
- Sérénade et Finale

C. Guarnieri (1907-1993)
Sonata Nº 3 (1977)
- Sem pressa
- Sereno e Triste
- Com alegria

H. Oswald (1852-1931)
Berceuse (1902)

F. Mignone (1897-1986)
Modinha
Ponteio e Dança (1946)

INTERVALO

C. Franck
Sonata in A Major para violoncello e piano
- Allegretto ben moderato
- Allegro
- Recitativo-Fantasia (Ben moderato)
- Finale Allegretto poco mosso

Sobre as obras

Sonata em ré menor para violoncelo e piano de Claude Debussy — Esta sonata, composta em Paris, em março de 1916, faz parte das últimas obras do compositor. O título previsto era “Pierrot raivoso com a lua” provavelmente em alusão a “Fêtes galantes” do poeta Paul Verlaine, inspiradas nos quadros de Wateau. Com efeito a composição apresenta uma mistura de humor sarcástico e poesia melancólica. O Prologue inicia no estilo de abertura francesa, altivo e majestoso. O piano retorna ràpidamente ao seu papel de acompanhante e deixa o violoncelo expandir-se livremente em expressões solitárias. Uma passagem de inquieta agitação “animando poco a poco” conduz ao tema inicial. A Sérénade, com seu humor fantástico e caprichoso avoca o Prelúdio para piano “Général Lavine” sobre um ritmo de Habanera. O violoncelo apresenta pizzicatos pontuados e harmônicos evocando um mandolim. O movimento final se desencadeia volúvel e virtuoso evocando imagens da Espanha, em particular os “Parfums de La Nuit” d’Iberia ou nos versos de Paul Verlaine: Leurs molles ombres bleues turbillonnent dans l’extase d’une rose grise et la mandoline jase parmi les frissons de brise” (Tradução livre: Suas amenas sombras azuis turbilhonam no êxtase de uma rosa cinzenta e o mandolim tagarela entre os calafrios da brisa).

Sonata in A Major para violoncello e piano de Cesar Franck — Esta obra é um dos primeiros exemplos de sonata cíclica. O tema principal exposto pelo violino é reapresentado e reelaborado em todos os outros quatro movimentos. Foi executada pela primeira vez em 16 de dezembro de 1886 pelo violinista Eugène Ysaÿe, a quem foi dedicada, e pela pianista Léontine-Marie Bordes-Péne no Círculo Artístico de Bruxelas. Embora escrita para violino e piano, esta sonata é muito executada, em uma feliz transcrição, para violoncelo e piano. Diz-se que esta sonata, pela sua característica cíclica, tenha inspirado Proust no seu livro “Em busca do Tempo Perdido”. Allegretto ben moderato — Os quatro primeiros compassos são confiados ao piano. O violoncelo entra a seguir com um maravilhoso tema sonhador e etéreo. A escritura fortemente cromática de Cesar Franck, que caracteriza todo o movimento, é extremamente modular e em alguns casos tonalmente ambígua. Allegro – Quasi lento – Tempo I — O segundo movimento, em ré menor, envolvente pela sua intensa emoção, é de novo iniciado pelo piano que depois de três compassos desemboca em um poderoso tema. O mesmo tema vem retomado pelo violoncelo e todo movimento transcorre em forma de sonata livre e alargada. Este movimento é marcado pelo contraste entre o primeiro tema e o segundo, melancólico e desesperado e entre as várias seções do seu desenvolvimento. Recitativo/Fantasia (Bem moderato – Largamente – Molto vivace) — As longas e rapsódicas cadencias do violoncelo são interrompidas na primeira parte pelo tema cíclico exposto pelo piano. A segunda parte é confiada ao violoncelo acompanhado por arpejos pelo piano. Um novo tema que será retomado no quarto movimento aparece várias vezes no decorrer deste. Todo movimento fortemente modulado tem o sabor de uma oração desesperada confrontada com um destino adverso e dramático. O trágico final, depois de um breve momento de luz, modula bruscamente para a tonalidade de fá sustenido menor. Allegretto poco mosso — O último movimento em La maior faz um grande contraste com a trágica melancolia do terceiro. A escritura que demonstra grande maestria contrapontística do compositor é em grande parte constituída por um cânone entre o piano e o violoncelo que exprime o tema cíclico, retomado, desta vez, sereno e luminoso. Antes do final vem apresentado por duas vezes um episódio dramático e fortemente modulado que é provavelmente a parte mais intensa da sonata. Passando pela serena tonalidade de dó maior, conclui na tonalidade inicial.